CRISTÃOS E JUDEUS

 

O que cristãos deveriam saber sobre identidade judaica

por Daniel F. Polish

Vivemos num tempo notável. Depois de 2.000 anos de desconfiança e hostilidade entre as comunidades judaica e cristã presenciamos que, em modo dramático, encontrem novos caminhos de encontro. De conseqüências radicais eram, para judeus, as visitas de papa João Paulo II e depois do seu sucessor, papa Benedito XVI em Estado Israel. Por quê isso é tão notável?

Por toda parte no mundo todo, representantes de ambas as comunidade encontram-se regularmente em colegialidade e amizade sincera. Judeus e cristãos trabalharam juntos numa série de questões sociais, bem como se ocuparam em colóquios formais com notável largura da fita de assuntos – e isso em alta estima mútua e abertura. A tais assuntos pertenciam, por exemplo, o filme de Mel Gibson “A Paixão de Cristo”, a imprecação de Sexta Feira Santa no reanimado rito tridentino e as observações dos bispos dos EUA sobre Evangelização e Missão.do ano 2009. Temos inter-cambiado nossas visões sobre história de cultura do martírio e sobre a Terra Santa, e comumente desenvolvemos uma série de filmes para comunidades locais, “Andar nos Caminhos de Deus”, que devam dar a nossos adultos de ambas as nossas tradições conhecimento das práticas e convicções da cada vez outra comunidade.

Mas apesar das crescidas relações, ambas continuam esfolando-se no único assunto: o Estado Israel. Freqüentemente demais, Israel chega a ser cunho doloroso, que esteja no caminho dum aprofundamento da compreensão entre judeus e cristãos. Parece que, sobre esse assunto, estejamos falando sem nos entender, ou ainda pior, falamos em linguagens totalmente diferentes. O fracassar da comunicação sobre isso leva a dores em ambos os lados.

Certamente há casos em que entendimento claro entre judeus e cristãos é possível, enquanto sobre Israel se discutir construtivamente. Mas muitas vezes o colóquio não reflete a realidade, na que Israel e os com este ligados aspetos, para judeus e cristãos, recebem significado completamente diferente.

A mim, como judeu, parece que a discussão sobre Israel, pelo lado cristão, está sendo coordenada ao âmbito de questões sociais e da política de exterior, sendo nisso despojada da sua significância espiritual. Para judeus, e também para tais que não concordam com a política do governo israelense, Israel tem significação essencialmente outra. Quando judeus fiéis ouvem como cristãos fiéis falam sobre Israel, não ouvem nas palavras cristãs nenhuma estima para a medida em que Israel joga papel espiritual fundamental em vida dos judeus.

Amor, dor e mal-entendimento

O que do que se trata nesses mal-entendidos é, para a relação de judeus e cristãos, de grande importância. História, que Martin Buber atribui a Moshe Lob de Sasow, apanha bem os concorrentes sentimentos dessa relação. Moshe Lob contou como numa hospedaria por acaso ouviu a conversa de alguns camponeses. Depois de beber muito, um camponês perguntou ao outro: “Me amas?” Seu companheiro disse: “Naturalmente te amo. Amo-te muito.” A isso o outro: “Dizes que me amas, mas se me realmente amasses, saberias o que me dói.”

O fazer de algumas comunidades religiosas, que eram parceiras de colóquio de comunidade judaica, muitas vezes me causou dores. Uma destas é o fato de que muitas denominações protestantes, embora somente pouco católicos americanos, aceitaram o “Documento Kairos de Palestina” de 2009 tão prontamente. Essa declaração de liderantes cristãos palestinenses condena a ocupação das áreas palestinenses “como pecado contra Deus e a humanidade”, afirmando que resistência não-violenta contra essa injustiça seja o direito e a obrigação de todos os palestinenses, inclusive dos cristãos. Com isso, porém, a declaração faz uma separação francamente insultante entre judeus e a Terra de Israel, do berço da nossa civilização.

A seguir, houve em outubro 2010 a morna repreensão do Vaticano nos pronunciamentos do exarca Cirilo Salim Butros, do arcebispo greco-melquita de Boston, que na finalização do sínodo de bispos do Próximo Oriente no Vaticano declarou: “A Sagrada Escritura não pode ser usada para justificar o retorno dos judeus a Israel e a deslocação dos palestinenses e a ocupação das regiões palestinenses por Israel. …Nós cristãos não podemos falar da ‘terra louvada’ como direito exclusivo para um povo judaico privilegiado. Essa promissão foi eliminada por Cristo. … Não há desde então mais povo escolhido – todos os homens e mulheres de todos os países chegaram a ser o povo eleito de Deus…” Isso veio 45 anos depois do Segundo Concílio Vaticano e da Declaração sobre as Religiões Não-cristãs, que abriu era nova no relacionamento judaico-cristão, o que é radicado na nossa herança bíblica comum.

Não menos penoso era o prólogo teológico ao esboço do Time de Estudo de Próximo Oriente da Igreja Presbiteriana. O prólogo parecia tentar a separar judeus do seu próprio passado histórico, negando-lhes um auto-entendimento. Afirmando que judeus não tenham ligação interna essencial à terra da sua experiência histórica e relativando, o documento criou imagem de identidade, na que judeus dificilmente possam reconhecer.

Todas essas comunidades de fé têm história do encontro e do colóquio com a comunidade judaica, mas todas pareciam estar sem adivinhar (suponho que se trate antes de ignorância do que indiferença) em vista ao papel aprofundante que Israel joga na vida espiritual dos judeus. Que judeus se sentem ofendidos nesses acontecimentos, deve especialmente a católicos dar para pensarem, porque parecem recusar a judeus as suas próprias experiências com Israel. As em 1974 pelo Vaticano publicadas “Guias para as Relações com os Judeus” propuseram que cristãos aprendessem o que fossem os indícios essenciais, pelos que judeus, em vista a sua própria experiência religiosa, se definissem. Para católicos deveria, então, a percepção própria aos judeus da significância religiosa do moderno Estado Israel ter certa influência ao como católicos reagissem aos desenvolvimentos ali.

Primeiro uma reserva. É importante acentuar que, para judeus, a força emocional de atração de Israel não tem nada a ver com as ações ou estratégias de governos israelenses. Essa força de atração é na mesma medida sentida pelos que simpatizem com determinado governo ou série de medidas como pelos que desesperem desse governo ou dessa política. Aqui se trata de algo muito mais radical.

Segundo: Reconhecimento do que Israel significa para judeus, não pode querer dizer que Israel esteja acima de qualquer crítica. Há bastante motivo para criticar as medidas do governo. Judeus. Os que fazem isso, estão sendo muitas vez criticados de “auto-ódio”. Cristãos que fazem isso são muitas vezes despachados como anti-semitas. Essas acusações são, em ambos os casos, muitas vezes fundamentalmente falsas. O desafio para cristãos que quiserem falar sobre erros de Israel, consiste em que, primeiro, desenvolvam consciência para que papel Israel jogue na vida emocional dos seus amigos e parceiros de colóquio judaicos – e abordar a realidades do Israel político perante esse fundo.

Na face de Jerusalém

O poder que Israel exerce sobre a vida emocional dos judeus, encontra para mim sua expressão numa bússola cujo ponteiro apontava, não sempre ao norte, mas sempre em direção a Jerusalém. Um das personalidades-líderes do Judaísmo de Reforma (cuja carreira profissional começou num tempo em que o Movimento de Reforma ainda era virulentamente anti-sionista) determinara no seu testamento que seu sepulcral seja rotulado com citação do poeta espanhol-judaico Jehuda Halevi da Idade Média: “Meu coração está no Lesste e eu estou no Oeste.” Qual é a essência dessa força magnética que Israel exerce a corações judaicos?

No nível mais simples a força, que Israel exerce sobre judeus, encontra paralela numa lembrança emocionante de Barack Obama no seu livro Dreams From My Father [Sonhos do Meu Pai]. Escreve da sua primeira visita em Quênia: “…tudo isso durante uma procissão contínua de caras pretas passava por nós… podia por um espaço de tempo de semanas ou meses gozar da liberdade, que vem do sentimento de não ser observado… . Aqui o mundo era preto, e assim era simplesmente somente tu.”

Supuser-se a palavra ‘preta’ com a palavra ‘judeu’, tem-se descrição viva do que judeu ou judia sentirá, quando ela ou ela estiver em Israel. É como um expirar  mesmo quando a gente não tiver sustado a respiração conscientemente. Até os judeus assimilados conhecem esse sentimento, ser circundado por pessoas humanas que carregam a mesma ‘etiqueta’ que a gente mesma carrega, que têm algo profundo e radical em comum. Mesmo judeus, que forem alienados da sua identidade, falam – muitas vezes admirando -  sobre a intensidade do sentimento de estar em casa em Israel.

Num nível mais profundo, Judeus vibram com Israel em referência à vida coletiva do povo. Não há pessoa judaica, seja de que idade for, que não estaria ciente do fato de que nossa vida fosse estigmada pelo fogo do Holocausto. Conscientemente ou não, para todos os judeus, Israel encarna a imaginação de ressurreição. Os medianeiros de praxe judaico-religiosa agiram conscientemente, quando puseram Yom Hashoa, o dia da memória no Holocausto, exatamente uma semana antes do YomAtsma’ut, o dia da memória da Independência de Israel  - ambos na época de ano do renascimento e renovação. Pode algum organismo sobreviver a perda dum terço do seu corpo? Também se for doloroso dizer isso tão brevemente depois desses acontecimentos: suponho que gerações posteriores vão assumir essa idéia, de que o Povo Israel teria perecido pelo trauma da Shoáh, não tivesse, pelo projeto de recuperação da sua pátria histórica, encontrado apoio novo na vida.

Identidade judaica pós-independência

Pela existência de Israel, a significância do que quer dizer ser judeu mudou, seja que se viva ali ou não. O poeta Karl Shapiro tem em 1948 sentido isso intuitivamente assim:
    Quando vejo o nome Israel altamente escrito
    Rompem as sebes na minha carne, afundo
    Profundamente numa cadeira ocidental e deixo minha alma repousar.
Esse muito novamente definido sentimento de auto-valor pode ter possibilitado a judeus participarem mais desembaraçados no diálogo inter-religioso e até fazer parte na vida cultural e política. Hoje se sentem como parte de sociedade e não mais eliminados.

Israel dispõe duma dimensão encarnatória. Encarna a integridade da experiência e da mensagem do povo judaico. Quando judeus visitarem a Espanha, encontram-na bonita e chamante, mas história de Espanha não é a deles. Mesmo quando a expulsão dos judeus da Espanha no ano de 1492 sempre vá ficar lembrança traumática.  Espanha não é, para identidade judaica, necessária na medida em que Israel o é. Espanha não lhes diz como a sua identidade, que agora têm, chegou a ser.

Quando judeus visitarem Israel, então a paisagem deste e seus lugares falam a eles em modo íntimo. É a encorporação do passado coletivo de todos os judeus, que nos ordena na nossa história e acorda a significância desta. Poder-se-ia quase dizer que Israel tivesse, para judeus, função semelhante como a comunhão para católicos. Pelo meio do século 20, homens liderantes da União Soviética, como se sabe, disfamaram judeus como cosmopolitas sem raízes. A existência do Estado Israel anula qualquer possibilidade de descrever judeus desse modo.

Israel oferece a judeus algo que não tinham desde o ano 70, da última expulsão da terra e dos inícios da sua existência como povo de diáspora, e o que o filósofo Emil Fackenheim chama de “o retorno judaico à história”. Fackenheim quer dizer com isso que a existência dum estado judaico oferece a judeus a aplicar os ensinamentos da sua tradição num fundamento mais amplo do que isso era possível como povo-pária tolerado por outros, determinados por estranhos e afastados da possibilidade de agirem mesmos como agentes no palco do mundo. Estado judaico oferece a judeus a chance de não mais serem os herdeiros lastimáveis duma tradição desaparecente, perdente de significância. Oferece-lhes a possibilidade de fazer parte dum povo que tem a tarefa de dar à sua cultura cada vez mais expressão nova, organismo dinâmico, em vez de ser peça de museu estática, petrificada.

A dor da existência histórica

Essa chamada ao reingresso na história efetua e esclarece a dor que muitos judeus sentem, quando o estado não incorporar os ideais da doutrina herdada, quando sua judaicidade for antes questão da demografia do que a dum caráter. Teodor Herzl, o “pai do moderno Sionismo” falou a frase que chegou a ser célebre: “Quando quiserdes, não é sonho.” Mas o sonho de Israel, do que os seus construtores foram inspirados e animados e que anima inspirações judaicas ainda, não é a de estada “normal” como todos os outros, estado cujos defeitos, como “preço” da política real num “ambiente perigoso”, sejam para serem aceitos.

Asher Ginsberg, que escreveu so o pseudônimo Achad Há’Am, sonhava dum estado judaico que incorporasse os valores milenares do povo judaico. Esse estado deveria ser luz para as nações na espécie e modo como conduzisse sua vida coletiva, estado que mediasse a visão de como cada estado pudesse ser. Essa visão nos permite sofrer da diferença do que Israel possa ser e o que é neste momento. Essa visão. nos exorta a pôr em ordem o que estiver errado, e essa visão conduz a nossa ligação com Israel para além de “apoio”, em direção a um engajamento aprofundante, abrangente a vida inteira.

Daí, para judeu, o engajamento com Israel é ligado no mais estreitamente com o nosso passado, presente e futuro, abrangendo para além do político. É relação de que não podemos esperar que seja compartilhada por não-judeus. Mas esperamos que nossos amigos e parceiros de colóquio cristãos, no seu falar e agir, estejam cientes do que esse engajamento significa para nós judeus.

______________________________________________________________
Texto inglês: Daniel F. Polish, A Spiritual Home. What Christians should know about Jewish identity
Tradução: Pedro von Werden SJ – pv-werden@uol.com.br
7/5/2010top

 
 

Pedro von Werden, SJ

Artigos