CRISTÃOS E JUDEUS |
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O 9 de novembroWolfgang Raupach-RudnickI.Nenhum outro ato criminoso do regime nazista era tão imediatamente perceptível por alemães e austríacos como o 9 de novembro. As imagens do dia estão firmemente fixadas na memória coletiva: as sinagogas queimantes; os vidros quebrados das vitrinas, os móveis jogados na rua, os saques – são cenas impressionantes e chamáveis da memória. Há certamente acontecimentos, para a eliminação e perseguição dos judeus mais “importantes”, como o despacho das leis nuremberguenses; mas a esses acontecimentos falta a força das imagens. A noite do 9 ao 10 de novembro de 1938 marca a transição da discriminação e eliminação dos judeus alemães desde 1933 para perseguição sistemática e da “solução final” resolvida em 1941 na conferência de Wannsee, da exterminação do Judaísmo europeu. Durante a “Noite dos Cristais” várias centenas de pessoas foram assassinadas ou se tomaram a vida. Cerca de 30.000 judeus foram confinados em campos de concentração, onde foram ainda assassinadas outras centenas ou morreram pelas conseqüências do confinamento. II.Nos anos depôs do fim da guerra, a lembrança do 9 de setembro na Alemanha não jogava papel1 – lembrados eram os pogroms em Palestinas/Israel e nos EUA. No novembro de 1950, o jornal da comunidade judaica em Berlim Der Weg realizou uma análise de imprensa e encontrou os resultados “vergonhosos”: “Enquanto nos anos passados ainda alguns sociedades de rádio alemãs dedicavam à memória desse dia horripilante dez ou quinze minutos, era no ano 1950 nesse dia bem tranqüilo. Temos lido em 9 e 10 de novembro mais que 100 diários e chegamos ao resultado … surpreendente de que, digo e escrevo, quatro jornais comemoraram o 12º aniversário da destruição de casas divinas judaicas, de moradias judaicas e do começo da liquidação do Judaísmo. Entre esses artigos houve ainda um de um rabino de país.…” (Der Weg, 17 de novembro de 1950). A comemoração naquele tempo era portada por sobreviventes judaicos e outros perseguidos pelo regime nazista, acontecendo isolada referente ao restante da sociedade. Ainda em 1968, no 30º aniversário, Zeit não trouxe nada e a revista Der Spiegel só de margem uma indicação, enquanto a renúncia do Kaiser [imperador] em 1918 está tratada detalhadamente. Essa situação se muda pelo fim da década dos 70 claramente. As primeiras ajudas de trabalho eclesiais aparecem, e a mídia volta amplamente ao assunto: A Zeit dedica um dossiê e um artigo do germanista Hans Mayer sobre as “sinagogas queimadas”. Essa atenção nova se junta ao primeiro ato de estado na sinagoga de Colônia, no qual o chanceler da Federação Helmut Schmidt era o orador principal. Para o efeito ulterior, a emissão da série de televisão Holocaust era de significância não desprezível. Os números abstratos de vítimas receberam biografia e cara. Nesse tempo nascia a forma de comemorar, que conhecemos até hoje. Outros dez anos mais tarde, em 1988, a comemoração da “Noite dos Cristais” alcançou “um auge francamente febril, epidêmico na Alemanha ocidental e, mais retidos, também na DDR [Deutsche Demokratische Republik = Alemanha oriental daquele tempo]”. Inúmeras exposições, emissões de rádio e televisão, palestras e lições, concertos em igrejas, escolas, salas públicas e universidades foram realizadas, bem como vigias de admoestação e caminhos de comemoração foram organizados em muitas cidades. O cume foi representado pela hora solene do Parlamento Federal Alemão com a palestra de Philipp Jeninger, a qual provocou protesto veemente. “A sua palestra não-convencional, mas não contestável no essencial, não coube no cânon político-correto de Holocausto e especialmente não na memória de Holocausto neo-estabelecida.” Precisava renunciar do seu ofício. Depois da virada [do século] a comemoração do 9 de setembro perdeu algo da sua dinâmica – embora sem questão a memória na destruição dos judeus cresceu em resumo. No início da década dos 90, o 9 de novembro, depois do pogroms contra procurantes de asilo e imigrantes, tinha uma face dupla. A comemoração do ano de 1938 foi ampliada à unidade nacional e democrática. Isso chega a ser claro na demonstração grande na véspera do 9 de novembro de 1993 em Berlim. Mais que 300.000 pessoas participavam sob o moto do artigo 1 da constituição: “A dignidade da pessoa humana está intangível”. A “Noite dos Cristais” chegou a ser motivo secundário para um assunto importante da Alemanha unida. Nos anos seguintes, observa-se uma aversão da política dessa data. A comemoração se dava essencialmente em nível regional e em comunidades judaicas. Ao 60º aniversário da “Noite dos Cristais”, 1998, havia, apesar do sermão controverso de Martin Walser um mês antes, só poucos atos em nível nacional. O cerimonial se realizava, não mais no parlamento de Bona, mas na sinagoga da rua Ryke em Berlim. Nem o presidente da Federação Roman Herzog, nem Ignatz Bubis se referiam nos seus sermões aos acontecimentos de 9 de novembro de 1938: Em vista à narrativa do acontecido, certo grau de saturação parecia ter sido alcançado. Agora a discussão com o Holocausto nos últimos anos não chegou a ser mais fraca. Bitburg, greve de historiadores, debate de Goldhagen, discussão acerca do memorial berlinense, debate Walser-Bubis. A gente pode naturalmente perguntar se não seja que esses debates não sejam mais importantes do que uma comemoração fixada numa data de calendário, esta que sempre se precisa impor contra paralisação e rotina. A contra-pergunta, porém, soa: Era que se tratava, nesses debates realmente da lembrança nas vítimas? Michal Bodemann chega à tese: “que, na Alemanha, o interesse na Shoáh, como uma seqüência de acontecimentos que se referem ao povo alemão, é de interesse subordinado. O próprio debate não gira ao redor da lembrança judaica. A questão que determina o discurso na Alemanha é de como a culpa e a extinção esperada de culpa – também simbolicamente pela indenização financeira – estão para serem compatibilizadas com as categorias alemãs de identidade nacional” (p. 96). III.“Noite de Cristal do Império” ou …? Até para dentro da década dos 70 do século passado, o 9 de novembro de 1938 era chamado, sem discussões maiores de Reichskristallnacht [Noite de Cristal do Império]. Ao 40° aniversário em 1978, nasceu uma nova formulação de palavra: Reichspogromnacht [Noite de Pogrom do Império]. O motivo para a nova formulação era obviamente o esforço de evitar a linguagem nazista. Apesar disso, esse conceito novo não está adequado; liga a palavra pogrom com o conceito Reich [Império; trad.], dando ao acontecimento uma legitimidade histórica – de certo modo um fôlego com conceitos como “Reichsgründung” [fundação de império] Reichswehr [{Força}Defensiva do Império; trad.] – a qual pela monstruosa palavra Reichskristallnacht até era impedida. Sobre essa palavra se precisa tropeçar. Exatamente expressão de jargão era adequada para o acontecimento horrível – no concurso de detentores de poder e população. A sua fundamentalidade dupla e interpretatividade dupla eram típicas para o tempo e para as tentativas duma parte da população de se arrumar uma válvula para poder, com aquilo que se estava preparando, ainda viver. O gracejo popular se apossava da linguagem patética dos detentores do poder, e estes aproveitavam com a vaidosidade própria a eles aquilo que chegou disso aos seus ouvidos. Podia-se estar tranqüilo “em cima”, quando não havia reações mais agudas do que essa formulação irônica. Eu também não vejo que esse conceito escarneça as vítimas ou disfarce as atrocidades. As imagens gravadas na memória coletiva impedem que o conceito abra associações como estas: ”Noite de Cristais! Aí cintila, fulmina como numa festa.”2 No espaço lingüista anglo-saxônico, o conceito Kristallnacht se naturalizou. Pertence à história que, da língua alemã foram exportados, não só palavras como “Kindergarten” [jardim de infância], mas também Endlösung [solução final] e Blitzkrieg [guerra relâmpago]. Podemos continuar a usar a palavra Kristallnacht; continua um estímulo para pensar. IV.Um problema de atos comemorativos atuais é que um ato do Dia Eclesial Evangélico Alemão em Colônia de 2007 mostrou claramente. Aparece antes de tudo quando judeus e cristãos comemorarem juntos a Shoáh. O ato colonense se realizou sob o moto da linha do poema de Hilde Domin “Toma pedras e me constrói uma casa!” Havia música comovente, contribuições de texto do jornalista judaico G. B. Ginzel – contou de entrevistas com coloneses e colonesas antigos, suas lembranças do tempo de escola, do carnaval judaico; contou de tais solenidades depois de 1945, nas quais também os números tatuados de campo de concentração de sobreviventes teriam sido vistos nos braços alegremente movimentados… No fim do ato, a maioria das pessoas foi para casa visivelmente emociona e comovida. Esse ato era típico para muitos outros: judeus carregam o peso principal da lembrança perante um público cristão. Frequentemente demais, deixamos judeus perante de nós e por nós e conosco comemorar. Isso é comovente – mas o quê é que tais atos comovem realmente? É que Igreja e publicidade tenham sido realmente atingidas? Ligando as nossas comemorações sempre mais uma vez com o convite às “vítimas e descendentes destas” – preparamos uma situação, na qual não podemos entrar “em juízo” com as nossas tradições. O ritual comum passa por cima das diferenças entre perpetradores e vítimas, também nas comemorações, também nas causas, as quais fizeram os uns perpetradores e os outros vítimas, levando à paralisação. V.Para as Igrejas, o 9 de novembro não é para ser substituído por nenhum outro dia de comemoração. Isso também vale para o dia de comemoração para todas as vítimas do nacional-socialismo em 27 de janeiro. Também quando a liberação de Auschwitz, para os perseguidos, era de importância eminente: a liberação não podia ser observada e experimentada dentro do Império Alemão. A isso, essa data contém o perigo de misturar as perspectivas de autores e vítimas, identificando-se inconscientemente com os libertadores. O 27 de janeiro é um dia sem lembrança na Alemanha. Também o dia israelense comemorativo Yom há-Shoáh está inadequado para uma comemoração na Alemanha. Está relacionado à levante do gueto de Varsóvia (27 de nisan), não tendo, como data, relação à Alemanha. O domingo de Israel, o 10° domingo depois do domingo de Trindade, o dia comemorativo anterior da destruição de Israel, mudou mais e mais o seu ponto de gravidade. Está agora preponderantemente um dia em que a Igreja se lembra das suas raízes judaicas e da ligação permanente com Israel. A isso, esse domingo está tradicionalmente ancorado só nas Igrejas Luteranas. Mantenho: O 9 de novembro tem, por causa da sua ancoragem na lembrança dos alemães como dia comemorativo, pressuposições melhores que outras datas do calendário. Quando o (não-pronunciado) assunto da comemoração até agora na Republica Federal for a questão de como culpa esteja para pôr em consonância com as categorias de identidade nacional, essa questão de culpa estará também um desfio para as Igrejas; aqui, as contribuição dessas está sendo procurada, já que têm, com o trato de culpa individual, uma tradição rica. E finalmente: As sinagogas destruídas e os rolos da Toráh queimados como prelúdio para o assassínio de cidadãos judaicos lembra as Igrejas da história de inimizade aos judeus cristã. Cada uma das medidas eliminatórias do regime nazista já foi antecipada pelas Igrejas nos séculos anteriores. VI.Comemoração hoje precisa tomar em conta a situação de que quase não há mais testemunhas de tempo presentes; precisa considerar que hoje as gerações terceira e quarta do acontecimento estão sendo endereçadas. Nessa situação, ajuda a questão de quais tradições bíblicas possam ser feitas frutíferas para o tratamento de culpa política e para a cultura de comemoração em total. “Só te cuida e conserva bem a tua alma, para que não esqueças o que os teus olhos viram, e que não saia do teu coração durante toda atua vida! E deves fazer conhecido, às tuas crianças e às crianças das tuas crianças, o dia que estiveste perante o Senhor, teu Deus no monte Horeb, quando o SENHOR me disse: Reúne-Me esse povo, para que escute as Minhas palavras aprenda a Me temer todos os dias da sua vida na terra e o ensine à suas crianças.” (Dt 4,9.10) A cultura judaica de comemoração está sendo freqüentemente descrita também nas suas dimensões pedagógicas, assim no exemplo da noite de çeder de Peçah 3, trazendo noções estas: Essa comemoração é emocional. Está sendo contado, não estão sendo apresentados documentos ou relatos. Tal comemoração cria a possibilidade duma identificação positiva. Uma possibilidade tal está também necessária na comemoração de catástrofes: Yad vaShem estaria dificilmente suportável sem a alameda dos justos que conduz até lá. A comemoração está sendo ligada a história de própria vida. Todas as experiências na pedagogia de escola e, antes de tudo, dos lugares comemorativos confirmam esses critérios. VII.Advogo, então, para comemorar a Kristallnacht num serviço religioso próprio4, e isso independentemente de se uma comunidade judaica no lugar ou a comunidade política convidar para atos de comemoração próprios ou comuns. A comemoração da própria história cristã de culpa e a conversão seguinte a essa não pode ser delegada. O 70° aniversário de 2008 cai num domingo, abrindo possibilidades amplas já dentro do culto dominical. O 9 de novembro é a data exemplar, na qual possa ser endereçada a história de inimizada cristã aos judeus – e a conversão das Igrejas depois da Shoàh. Preparadores de caminho dessa conversão depois de 1945 eram também os poucos na Igreja que já em 1938, depois do 9 de novembro, levantaram a sua voz em pregações e outras ocasiões. As suas vozes pertencem para dentro da comemoração. O culto pode convidar para a identificação dessa conversão. O 9 de novembro é também um dia da “história da Igreja”, não só da história judaica. O 9 de novembro pode efetivar a ligação com a história da própria vida – sem questão para os mais idosos ainda poucos. Mas também gerações que nasceram depois podem ser tomadas para dentro. Têm hoje muitas experiências com alemães não-étnicos e podem estudar a pergunta: Porque certos grupos entraram na mira dos nazistas? – Aqui outras ligações estariam a serem descobertas. VIII.Entrementes, o Sínodo Evangélico de País em Vurtemberga resolveu, em 25 de outubro de 2007, com maioria esmagadora com uma única voz em contrário e 4 abstenções, um pedido ao conselheiro supremo: “introduzir o 9 de novembro como dia de comemoração e conversão; cuidar em toda a área da Igreja do país que o 70° aniversário no ano 2008 seja celebrado com obrigatoriedade geral; recomendar às comunidades comemorar anualmente os acontecimentos no 9 de novembro de 1938, possivelmente em ligamento ecumênico e em ligação com as comunas… examinar a possibilidade da assunção no calendário do livro evangélico de canto; fazer conhecer o anseio desse pedido à comunidade de trabalho de Igrejas cristãs e, através do Conselho das Igrejas Evangélicas na Alemanha, às demais Igrejas membros da EKD [Evangelische Kirchen Deutschlands = Igrejas Evangélicas da Alemanha].” O pedido para essa resolução se baseia numa iniciativa do círculo de trabalho “encontro com a comunidade judaica de Petrosawodsk” na Comunidade-Dietrich-Bonhoeffer de Tübingen. Essa iniciativa foi iniciada em 7 de setembro de 2005 pelo pároco Dankwart-Paul Zeller e o pároco dr. Michasel Volkmann. Um depois outro, o conselho da comunidade eclesial da Igreja-Dietrich-Bonhoeffer, o conselho eclesial geral de Tübingen e as regiões eclesiais de Münsingen, Leonberg e Blaufelden, bem como o grupo de trabalho da Igreja do país “Caminhos para o entendimento do Judaísmo” apropriavam-se da resolução. Entrementes, aumentam-se as vozes que saúdam essa iniciativa. Círculos singulares de trabalho nas Igrejas dos países e a EKD planejam, com ajudas para o culto, a apoiar a comemoração nesse dia. Fica para esperar que as chances múltiplas, que o 70° aniversário da “Noite dos Cristais” oferece num domingo, sejam aproveitadas para a comemoração eclesial. Nesse dia pode chegar a ser visível que as Igrejas perceberam as vozes de comemoração judaica, respondendo a essas vozes com a comemoração da sua história própria. Notas literárias 1 a 4: no fim do texto alemão! Texto alemão em
Der 9. November – ein kirchlicher Gedenktag |